O Punhal

A rotina sempre me massacrou. Todas as manhãs, quando despertador toca, é como se um punhal me atravessasse o peito sem me matar, apenas me causando uma dor quase insuportável. O relógio já marca 7h30, com certeza eu vou me atrasar. Logo hoje, que tenho uma reunião às 10h com a agência de São Paulo. Reuniões às 10h só servem pra uma coisa: quebrar sua manhã. Todas as quartas-feiras minha manhã é quebrada.

Com o punhal cravado no peito me levanto, tomo banho e me esforço pra fazer uma maquiagem leve. Nada muito chamativo, o chefe não gosta. Se ele não gosta de maquiagem forte, não devia nos obrigar a trabalhar maquiadas. Ele devia sim obrigar aqueles estagiários de design a usar roupas limpas e lavar aqueles cabelos engomados. Honestamente, acho que se fosse adolescente nos dias de hoje, permaneceria virgem, ou viraria lésbica. Pelo menos, com as opções que eu vejo por aí, fico enjoada só de pensar.

Cristo, como eu queria que algo marcante acontecesse me tirasse deste suplício. O punhal não está mais no meu peito, mas foi fincado na minha cabeça. Não são nem 9h e ela já ferve, lateja, parece uma panela de pressão, prestes a estourar. Já viu o estrago que faz uma panela de pressão quando explode? Ia ser legal, uma explosão nesse ônibus cheio. Metade dessas pessoas voariam pela janela. E se eu voasse pela janela? Ah, eu não teria essa sorte.

9h55, pego o telefone e entro no espaço para a call com a agência de São Paulo. Eles são tão pontuais, que chega a irritar. Eu nunca gostei de atrasados, mas tanta pontualidade chega a ser doença. Todas as semanas a mesma coisa, as mesmas recomendações. Honestamente, será que eles já descobriram a existência dos e-mails? Eles funcionam, às vezes. E, modestamente, acho uma bela ferramenta de trabalho.

Acho o e-mail, por sinal, uma invenção revolucionária. Você recebe quando quer, responde quando pode, ou quando te ligam cobrando. Mas você tem o controle. Pelo menos tem a sensação de ter o controle. Jung deve ter dito alguma coisa sobre a importância de ter a sensação do controle. Talvez o Freud tenha dito. Se não disseram, deviam ter dito. Digo eu. No futuro, alguém poderá dizer, “segundo Débora…” Nossa, onde está minha cabeça, acho que a call já acabou. Que diferença faz.

Ai, já vem o Clóvis me chamar pra almoçar com ele. Eu não tenho mais desculpa pra dar. Na semana passada eu internei minha avó por três dias. Coitada, três dias em coma induzido na UTI. Na segunda, eu quebrei a perna da minha tia. Ontem eu consegui me enfiar no banheiro, sem ele me ver. Mas hoje eu vou ter que encarar. O cara deveria ter o famoso Semancol. Ual, eu fiquei velha. Me lembro da minha professora da quarta série falando isso, que meus coleguinhas não tinham Semancol. Mas acho que falta Semancol no mundo. Deveriam descobrir a fórmula química disso e despejar na água. Eles descobrem tanta coisa hoje em dia.

O almoço está correndo tranquilamente. A Lourdinha, aquela galinha que dá em cima de todos os homens héteros da agência nos acompanhou. Ela e Clóvis falaram de tudo. Parei de escutar quando começaram a discutir sobre política. Voltei ao assunto quando começaram a se levantar da mesa. “Vamos, Deb?” Acho que fiquei fora do ar por uns 30 min. Acho que a Lourdinha merece um chocolate… conseguir passar esse tempo todo agüentando as piadinhas do Clóvis. “É pavê ou pacumê…” Alguém me tira daqui.

Hoje eu não vou trabalhar depois do almoço. Vou fingir que estou escrevendo um briefing e vou fazer umas pesquisas na internet. Eu preciso de um sofá novo. O meu sofá morreu. Ele morreu junto com o meu namoro com o Carlos. Ela passava o fim de semana inteiro deitado nele e vendo futebol. Os finais de semana não eram nada emocionantes. Eu dei várias indiretas, até que tive que ser direta. “Não. Chega, eu não suporto mais essa vida. Preciso de um tempo. Preciso repensar nossa relação.” Ele foi embora. Eu chorei dois dias. Me senti culpada, mas depois me senti livre. Ou pelo menos tive a sensação de liberdade. O Jung ou o Feud também devem ter escrito algo nesse sentido. Se não escreveram também, não faz muita diferença.

Acho que em meia hora eu chego em casa. Não posso perder o capítulo de hoje da novela das oito. Oito nada, há anos, ela começa às nove. Todos os dias eu vejo a novela, não perco um capítulo. Hoje a mocinha vai dar uma surra na vilã, aquela bandida. Também já não era sem tempo. Tem seis meses que ela engana a coitada. Merece mesmo uma boa surra. Se fazendo de amiga só pra ficar com o namorado dela.

Antes eu preciso dar uma passadinha no açougue. Se esse ônibus andasse mais rápido um pouco, eu conseguiria até passar na padaria. Abriu uma padaria nova na rua de trás do meu prédio, mas em certos casos, é melhor não arriscar. Em time que está ganhando não se mexe. Por isso só vou ao açougue do Seu Manoel. Nessas épocas em que vendem papelão pra gente, confiança é fundamental.

 

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